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‘Superbactérias’ provocam crise de saúde global, alerta estudo

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Data: 27/12/2013

Fonte: Portal O Globo

 

 

RIO - O uso excessivo de antibióticos na agricultura e na criação de animais - também chamado de consumo não humano - inaugurou uma era de “crise de saúde global”, segundo um estudo publicado esta semana na revista “New England Journal of Medicine”. O economista Aidan Hollis, autor do artigo e professor da Universidade de Calgary (Canadá), alerta que as substâncias aumentaram o contingente de micro-organismos imunes aos medicamentos. Em contato com as “superbactérias”, o homem está sujeito a um novo leque de infecções ainda não conhecido pela indústria farmacêutica.

Estima-se que só nos EUA sejam consumidas cerca de 51 toneladas de antibióticos por dia, 80% deste total para o aumento da produção agropecuária. No resto do mundo, no entanto, esta proporção também seria alarmante - à exceção da União Europeia, onde o uso destes medicamentos no campo é proibido.

Os antibióticos são aplicados em árvores frutíferas e, principalmente, em animais. Sua injeção exagerada no meio ambiente permitiu a multiplicação de bactérias mais resistentes. O pesquisador lista evidências de patógenos imunes à enxurrada de medicamentos usados no campo.

- Vivemos atualmente uma crise de saúde global - avalia. - As bactérias resistentes a antibióticos causam cerca de 2 milhões de infecções anualmente nos EUA. E a imunidade destes micro-organismos está crescendo.

Além de nossa dieta, as bactérias imunes a antibióticos nos atingem por outras vias.

- Não é apenas a comida que consumimos - alerta o economista. - As “superbactérias” se espalham no ambiente e vão de uma pessoa para outra. Se você for infectado com uma bactéria resistente, os antibióticos não lhe darão um alívio.

Segundo Hollis, as indústrias farmacêuticas, embora reconheçam o valor dos antibióticos, ainda não se sentem estimuladas a produzir remédios contra as “superbactérias”:

- A medicina moderna se baseia em antibióticos para matar infecções bacterianas. Sem estes medicamentos, qualquer cirurgia seria extremamente arriscada e as terapias, menos eficientes - lembra o economista. - Mesmo assim, as companhias farmacêuticas ainda não investem no desenvolvimento de remédios contra as “superbactérias”. Enfrentamos uma escassez de produtos.

Sem a aplicação de antibióticos no campo, o desenvolvimento das “superbactérias” poderia ser interrompido. No artigo, Hollis sugere a criação de uma taxa contra o uso exagerado dos medicamentos, da mesma forma que petroleiras pagam royalties por sua atividade e empresas que cortam árvores bancam projetos de replantio.

Os empresários do setor agropecuário, no entanto, não abrem mão dos antibióticos, que diminuem os custos da produção.

- Os antibióticos são aplicados em pequenas doses, mas é o suficiente para reduzir a quantidade de grãos necessária para alimentar o gado, ou para que um filhote não fique doente quando estiver em condições insalubres - conta. - São métodos obviamente lucrativos para os fazendeiros, mas isso não significa que vão gerar grandes benefícios. É possível alimentar o mundo inteiro sem recorrer a estes medicamentos.

Tratado internacional

De acordo com o economista, a criação de um imposto forçaria o agropecuarista a investir em métodos de melhor manutenção de seus animais. Entre eles, o uso de vacinas, em vez de antibióticos, para tratar animais doentes.

Além de uma taxa para controle dos medicamentos, Hollis também sugere a instituição de um tratado internacional contra os antibióticos não humanos. O economista lembra que as “superbactérias” não respeitam fronteiras.

Devido à sua grande produção agropecuária, o Brasil deve ser “pressionado” a reduzir a aplicação destes medicamentos no campo.

- O Brasil é um país emergente com indústria agrícola. Deve ser pressionado a aderir a um acordo internacional - defende. - Este documento restringiria o consumo dos antibióticos. Proibir totalmente o seu uso seria muito mais difícil de monitorar.

Hollis avalia que o acordo teria grande adesão porque os governos veriam a imposição de multas como uma nova fonte de receitas.

A ONG Aliança para o Uso Prudente de Antibióticos (Apua, na sigla em inglês) comparou o efeito de antibióticos ingeridos propositalmente - por exemplo, pela automedicação - àqueles ingeridos em alimentos.

- De fato, existe o risco da ingestão desnecessária de antibióticos gerar resistência em bactérias patogênicas ao homem - diz o pesquisador Carlos Alberto Lopes, da Embrapa Hortaliças, que acompanhou as discussões da Apua. — Bactérias patogênicas adquirem facilmente a resistência a antibióticos pelo simples contato entre elas. Daí surgem as “superbactérias”.

Lopes, no entanto, destaca que o uso de antibióticos pulverizados em plantas é “desprezível” no Brasil. Os problemas de saúde são causados pelos medicamentos aplicados em animais ou pela própria automedicação.

- Por aqui, a ingestão indesejável de antibióticos por humanos era praticamente 100% de origem animal — assegura. - O cuidado maior deve ser com uso de antibióticos na criação de animais de abate.

Duas semanas atrás, a FDA, a agência americana que regula alimentos e remédios, anunciou limites voluntários para o uso de antibióticos em fazendas.

A agência lembrou que a grande maioria dos antibióticos usados na agricultura não é aplicada em medidas que trariam grande impacto - como remédio para animais doentes -, mas para promover a baixo custo o crescimento de espécies. A FDA sugere que as companhias farmacêuticas mudem as práticas de marketing para combater este problema. As metas, no entanto, foram consideradas “tímidas” pelos ambientalistas.

 

 

 

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